Dez candidatos disputam amanhã, 7 de março, a Final do Festival da Canção 2026, edição que fica marcada pelo boicote da maioria dos participantes em marcar presença no Festival Eurovisão. Afinal o que pode acontecer depois da Final de amanhã?
Os estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, recebem amanhã, 7 de março, a Grande Final do Festival da Canção 2026, certame que, tal como nos anos anteriores, escolhe os representantes de Portugal no Festival Eurovisão 2026. Contudo, ao contrário das outras edições, o vencedor do certame não se torna automaticamente representante português em Viena, ficando apenas "habilitado" a representar Portugal no certame. E porquê? Porque vários concorrentes anunciaram a intenção de boicotar o concurso...
No entanto, nem todos aderiram ao boicote ao Festival Eurovisão - baseado na participação de Israel no concurso internacional, tal como podes recordar AQUI - e, em caso de triunfo, já confirmaram a participação em Viena: é o caso dos Bandidos do Cante e de André Amaro. O grupo alentejano foi o primeiro a confirmar a participação, realçando que "não sentimos que deva existir uma posição única em nome da banda sobre questões internacionais complexas" e que "se um dia o público e o júri entenderem que uma canção nossa deve vencer, representaremos Portugal com responsabilidade, respeito e dignidade" - artigo completo AQUI. Por sua vez, André Amaro garantiu, no encontro da imprensa aquando da apresentação das canções, que aceitaria a participação eurovisiva, tendo revelado mais recentemente que quer levar "o nome Aldeia do Bispo além fronteiras".
Por outro lado, o algarvio Sandrino, que chegou ao Festival da Canção através da livre submissão, não tomou nenhuma posição pública sobre a temática, entendendo que, ficando de fora da carta assinada pelos artistas que tencionam boicotar, poderá aceitar representar Portugal no Festival Eurovisão. Contudo, em várias publicações de apoio ao candidato, são várias as menções a Viena e à possibilidade de representar Portugal.
Em sentido contrário, estão os restantes sete finalistas: João Ribeiro, Gonçalo Gomes, Marquise, EVAYA, Nunca Mates o Mandarim, Silvana Peres e Dinis Mota assinaram a carta tornada pública, garantindo que, em caso de vitória, não participarão no Festival Eurovisão 2026, sendo bastante improvável uma mudança de decisão.
Caso vença um dos três candidatos que admitem a participação no Festival Eurovisão 2026, o cenário é claro - o vencedor do Festival da Canção representa Portugal em Viena. Contudo, o cenário não é claro caso vença um dos sete candidatos anteriormente mencionados, sendo apenas claro que nenhum deles aceitará a participação em Viena pela RTP.
A primeira possibilidade (e aquela que aparenta ser a mais racional) é que o direito de representar Portugal no Festival Eurovisão 2026 passará para outro candidato por ordem de classificação, ficando por garantir se algum dos candidatos aceitará a participação eurovisiva em caso de não vitória no concurso nacional. Outra possibilidade é a RTP selecionar, de forma interna, um dos candidatos disponíveis, independentemente da classificação de sábado. Contudo, apesar da RTP "não ter plano B", uma retirada parece estar fora das possibilidades, especialmente pela pesada multa que receberia da EBU/UER, conforme contemplado no regulamento do evento.
Outra questão que se impõe é: Quando será conhecido o representante de Portugal no Festival Eurovisão? E a resposta ninguém sabe... Caso o vencedor seja um dos candidatos disponíveis para Viena, o anúncio deverá ser imediato (Ainda que a palavra Eurovisão tenha sido abolida das semifinais do Festival da Canção), estando prevista uma conferência de imprensa com o vencedor. Contudo, a situação poderá demorar algumas horas a ser revelada, sendo que a mudança do prazo final de entrega das candidaturas junto da EBU/UER de segunda para terça-feira poderá estar também relacionada com a final nacional portuguesa.
Independentemente do que aconteça, uma certeza teremos: a Final do Festival da Canção 2026 será uma das mais imprevisíveis da história do formato e não sabemos quando (nem como) acabará...

Muitos elogiam Portugal no ESC por se manter fiel a si próprio: música tradicional, língua portuguesa e identidade cultural em vez de seguir tendências. Parece algo nobre, mas o que é que isso traz no final? Muitas vezes, infelizmente: nada.
ResponderEliminarPortugal ficou pelo caminho na semifinal com “Rosa”, dos Bandidos do Cante. E depois começa sempre a mesma discussão: que o ESC está demasiado barulhento, artificial e focado em efeitos e espetáculo. Mas talvez o problema não esteja apenas no próprio concurso.
Não me interpretem mal: eu gosto da canção, mas eu sou português, identifico-me com as tradições nacionais e valorizo-as. No entanto, esta música é mais adequada para consumo interno do que para um formato internacional como o ESC.
A realidade é que o ESC mudou. Hoje dominam encenações modernas, forte presença em palco, músicas cativantes e momentos memoráveis. Goste-se ou não, é assim que o concurso funciona atualmente.
Portugal, por outro lado, parece muitas vezes preso ao passado. Muitas vezes são escolhidas canções que podem ter valor cultural, mas que internacionalmente acabam frequentemente vistas como demasiado lentas, com mensagens difíceis de compreender ou simplesmente aborrecidas. Sobretudo no televoto, músicas tradicionais e calmas, sem efeito de “earworm”, quase já não têm hipóteses.
Em vez de evoluir, fica muitas vezes a sensação de que Portugal quer explicar à Europa o que é “verdadeira qualidade musical”. Mas no ESC os votos dos espetadores pesam e são eles que decidem aquilo que os emociona e em quem querem votar.
Sim, em 2017 Salvador Sobral venceu com “Amar pelos dois”, uma canção calma, emotiva e sem grandes efeitos. Mas foi precisamente por isso que esse momento se tornou tão especial. O provérbio português encaixa perfeitamente: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.” Mas algo assim talvez aconteça uma vez em 60 anos. Será esse o verdadeiro objetivo de Portugal?
Se Portugal quiser ser competitivamente forte no ESC de forma consistente, terá de aceitar que, hoje em dia, tradição por si só já não chega. É possível preservar a identidade portuguesa e, ao mesmo tempo, apresentar-se de forma moderna. Outros países conseguem esse equilíbrio.