[AO VIVO] 'Severa - O Musical' é muito mais do que a história da 'mãe do Fado'


Filipa Cardoso, Dora, Yola Dinis, Ricardo Soler, David Gomes e Augusto Gonçalves são alguns dos rostos responsáveis por contar a história de Severa, a mítica figura da Mouraria considerada a mãe do Fado. O ESCPortugal esteve no Teatro Politeama e conta-lhe tudo (ou quase tudo).

Inspirado na lenda de tradição oral de Severa, nas lutas de absolutistas e liberais contemporâneas ao tempo em que Severa viveu, Filipe La Féria traz ao palco do Teatro Politeama, 'Severa - O Musical', história da mítica mãe do Fado. E Carlos Quintas (ESC1978), como Almeida Garrett, abre as hostilidades, situando-nos no tempo e no espaço: estamos em meados do século XIX, na misteriosa e peculiar Mouraria, numa Lisboa marcada e flagelada pelas invasões francesas, pela independência do Brasil e pela guerra entre liberais e absolutistas.


E é numa tradicional taberna do bairro, no rescaldo de uma corrida de touros, que começa toda a trama. Como é habitual na marca La Féria, tudo acontece ao mesmo tempo e todos os pormenores são pensados ao milímetro. Do cego ao mendigo e do galego taberneiro ao escravo negro, passando pelas meretrizes e pela classe alta, temos o retrato social de Lisboa da época e apresentado o enredo de culturas e de conflitos que deram origem ao Fado. Está dado o mote para a história de Severa, a mítica cigana alentejana, nascida na Mouraria, que, além de meretriz, é apontada como a mãe do Fado.


No papel de destaque da peça temos Filipa Cardoso (FC2007) que tem, com Severa, o papel (e a interpretação) da sua vida. A raça da fadista mistura-se com a fibra da cantadeira e não conseguimos, ao longo da peça, distinguir Filipa de Severa e a Severa de Filipa. Mas não ficamos pelos momentos musicais: Filipa é a responsável por um dos momentos mais cómicos da peça, com o fado a ser apresentado à fidalgia... o que, obviamente, não acabou bem, mas também pelos atos mais pesados. Além do talento já reconhecido como fadista, temos aqui uma promessa do teatro! Bravo Filipa!


Alguns dos momentos altos do musical acontecem entre Severa e Custódia, personagem a cargo de Filipe de Albuquerque. Mendigo e corcunda, Custódia luta, durante toda a peça, para obter a atenção de Severa, procurando obter fundos para comprar os seus serviços, com o desespero a levá-lo a atacar o Conde de Vimioso, mais conhecido por Marialva, que é brilhantemente interpretado por Bruno Xavier, uma das surpresas do elenco e outra das promessas dos próximos anos do teatro português. Contudo, é Filipe de Albuquerque que tem o grande papel do musical: é impossível ficar indiferente à presença e à interpretação de Filipe durante todo o desfiar da peça. Arrepiante e emocionante em todas as intervenções, tem uma prestação digna dos melhores e dos maiores do teatro internacional.


Outra das surpresas do espetáculo é Yola Dinis (FC2015). Uma das maiores e mais poderosas vozes do fado, que nos encantou em 2015 com 'Outra Vez É Primavera', é a responsável por dar corpo e voz a Marcolina, a dona da taberna onde se passa grande parte do enredo, e a D. Maria II. Se em Marcolina surpreende com uma prestação enquanto atriz que nos era desconhecida, enquanto Rainha de Portugal temos a "nossa" Yola a cantar num português do Brasil perfeito e num registo muito diferente do que estamos habituados. Nota máxima e outra das surpresas da peça!


Mas os grandes destaques não se ficam por aqui. Ricardo Soler (FC2008/12), enquanto D.José, grande amigo do Conde de Vimioso, volta a mostrar que é um dos melhores no teatro musical atual com várias interpretações arrepiantes. Morto às mãos do amigo, com quem entra em conflito devido aos seus ideais distintos, tem também outro grande momento com Dora (ESC1986/88), a Marquesa de Seide, com quem o Conde tem um caso, e que volta a destacar-se, tal como aconteceu em peças anteriores.


Como dito anteriormente, uma das particularidades dos musicais de Filipe de La Féria é que nada (mas mesmo nada) é deixado ao acaso e que as personagens ditas secundárias têm também espaço para se destacar. David Gomes (FC2017), enquanto Gabriel, um escravo na taberna, é um exemplo claro disso. Arrepiante e emocionante a última interpretação do jovem cantor e ator, depois de ser libertado por Severa, num dos momentos em que deixamos de ver a personagem como a meretriz de faca na liga, mas sim uma espécie de justiceira da Mouraria e protetora dos discriminados. 

Destaque também para o papel de Timpanas, o cocheiro mais famoso de Lisboa, que é interpretado por Rui Vaz, dando voz a um dos temas intemporais do filme Severa de 1931 e que chegou a ser cantado por Amália Rodrigues. No desenlace da peça temos também oportunidade de ver a "nossa conhecida" Catarina Pereira (FC2010/14), em vários papéis mais secundários do que vimos anteriormente, bem como Augusto Gonçalves (FC2014), entre outros tantos.


E 120 minutos de espetáculo passam num ápice. Do riso ao choro, da alegria à profunda tristeza, a história da mãe do fado é contada por um suceder de histórias e enlances que, como é habitual com La Féria, captam, em todo o instante, a atenção do público. Da praça de touros à taberna, passando pelo salão da aristocracia e pela prisão do Aljube, 'Severa - O Musical' é mais do que a história de Severa e do que a história de Portugal: é um pouco da história de todos nós. A promessa de um regresso foi feita e a curiosidade de ver Anabela no papel principal é também grande! Uma coisa é certa: Severa - O Musical é dos melhores espetáculos que já vimos em Portugal! Parabéns a todos!





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Fonte: ESCPORTUGAL / Imagem/Vídeo: Teatro Politeama

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