Uma investigação publicada esta segunda-feira pelo The New York Times revelou os aspetos mais subtis da estratégia de Israel na Eurovisão. O jornal norte-americano afirma que o governo de Benjamin Netanyahu tem promovido campanhas publicitárias, pressão diplomática e mobilização de eleitores para fortalecer a posição internacional de Israel desde o início da guerra em Gaza.
A investigação, da autoria de Mara Hvistendahl e Alex Marshall, após entrevistas a mais de 50 pessoas e análise de documentos internos da União Europeia de Radiodifusão (UER), descreve uma estratégia que já existe há anos e que se intensificou após o início da ofensiva israelita em resposta aos ataques do Hamas, a 7 de outubro de 2023. O objetivo: transformar o concurso numa ferramenta de soft power numa altura em que a imagem internacional do país se está a deteriorar.
“O governo israelita apropriou-se do Festival Eurovisão da Canção”, resumiu Stefan Jon Hafstein, presidente do conselho de administração da televisão pública islandesa, em declarações publicadas pelo jornal. A Islândia é um dos países que, juntamente com Espanha, Irlanda, Países Baixos e Eslovénia, não participa no festival deste ano em protesto contra a participação de Israel.
De acordo com a investigação do The Times, os ministérios israelitas e as embaixadas europeias intervieram diretamente para impedir que vários países pressionassem pela expulsão de Israel do concurso, depois de alguns terem considerado boicotar o festival devido à guerra em Gaza e às suspeitas em torno da integridade da votação por telefone.
A investigação alega ainda que o governo israelita destinou pelo menos um milhão de dólares a campanhas relacionadas com a Eurovisão. Parte do financiamento veio do gabinete de Hasbara, o aparelho de Estado responsável por promover a narrativa internacional de Israel. A estratégia incluiu anúncios direcionados nas redes sociais, campanhas digitais multilínguas e mensagens coordenadas a incentivar os utilizadores a votar até ao limite máximo permitido por pessoa.
O artigo do The Times expande e documenta uma estratégia que foi parcialmente exposta no ano passado. Em 2025, uma rede de organizações ligadas ao sionismo político, grupos de lobby, contas institucionais israelitas e associações da diáspora participaram ativamente na promoção da candidatura de Yuval Raphael como representante de Israel na Eurovisão 2025.
Raphael, sobrevivente do ataque do Hamas ao Festival Nova, a 7 de outubro de 2023, obteve 297 dos seus 357 pontos graças à votação por telefone. Em países como a Espanha, a Suécia, a Bélgica, a Suíça e o Reino Unido, recebeu o máximo de votação popular, apesar da acentuada deterioração da imagem de Israel na opinião pública europeia desde o início da guerra.
A campanha apelou abertamente ao voto em massa. "Vote 20 vezes!" foi a mensagem repetida por organizações como a StandWithUs, uma plataforma fundada nos Estados Unidos e estreitamente alinhada com a diplomacia israelita. O próprio Netanyahu publicou mensagens a encorajar as pessoas a votar na candidatura israelita, ao mesmo tempo que anunciava novas operações militares em Gaza.
Um dos nomes que surgiu já nessa altura foi o de David Saranga, chefe de diplomacia digital do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel. Anos antes, Saranga tinha reconhecido nos meios de comunicação israelitas o envolvimento direto do seu departamento e da rede de embaixadas em campanhas de mobilização do voto na Eurovisão em várias línguas europeias.
A investigação do The Times acrescenta agora que os esforços diplomáticos foram muito além do que se sabia anteriormente. Segundo o jornal, as embaixadas israelitas pressionaram as emissoras públicas e os governos europeus para que interrompessem as tentativas de exclusão de Israel. Algumas, como a embaixada em Espanha, fizeram-no publicamente. Entretanto, a UER (União Europeia de Radiodifusão) evitou abrir uma investigação formal ao voto por telefone, apesar das queixas internas de várias estações.
Martin Green, diretor da Eurovisão, admitiu ao The Times que a campanha israelita foi "desproporcional", embora tenha negado que tenha alterado o resultado final. No entanto, a análise do jornal norte-americano afirma que, em alguns países, "algumas centenas de pessoas a votar repetidamente teriam sido suficientes para alterar o resultado".

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