[OPINIÃO] "Portugal faz a aposta mais ousada (e acertada?!) da sua história na Eurovisão"


Portimão ficará para a história de Portugal no Festival Eurovisão como a cidade que acolheu a decisão mais ousada para o certame europeu... Estaremos novamente na rota da vitória no Festival Eurovisão? Parece-nos que sim!


14 horas do dia 2 de março. Local? Sede da RTP, em Lisboa. Duas dezenas de pessoas e um autocarro. Dois motoristas e um só destino: Portimão. A história repetiu-se mas com um destino... totalmente inverso. Entre elementos da RTP, jornalistas, fotógrafos e bloggers, a equipa do ESCPORTUGAL marcou presença com o grupo de Lisboa que se deslocou à final nacional portuguesa para o Festival Eurovisão 2019. Durante as três horas de viagem entre a capital e a cidade algarvia, diversas conversas marcaram presença no autocarro... mas a temática era a mesma: o Festival Eurovisão 2019.

Apesar do assunto do dia a nível nacional ser o clássico FC Porto - Benfica (que se antevia fazer grandes estragos nas audiências do concurso... o que se comprovou no dia seguinte), Portimão tinha os holofotes virados para a Portimão Arena. Do senhor do McDonalds às dezenas de pessoas que, desde cedo, fizeram questão de se juntar nas proximidades do recinto, a noite prometia ser histórica... mas não tão histórica quando realmente viria a ser.

Ao contrário do ano passado, o São Pedro (não o compositor d'O Jantar, mas aquele que supostamente controla as condições meteorológicas cá em baixo) foi amigo dos eurofãs portugueses e ofereceu um fim-de-semana digno de verão, o que levou muitos seguidores do Festival da Canção que rumaram a Portimão a aproveitarem as praias algarvias. Para a equipa do ESCPORTUGAL, as horas antes do espetáculo serviram para repor energias, ultimar os preparativos para a noite eurovisiva (sim, as atenções portuguesas estavam em Portugal, mas as nossas estavam em vários países...) e aproveitar para rever pessoas com quem não estávamos desde a semana eurovisiva em Lisboa (e sim, muita nostalgia à mistura...).


Reunida a equipa com os colaboradores que nos acompanharam nesta aventura, eis chegado o momento de entrar no recinto. Com uns lugares a escassos metros do palco (Obrigado RTP!), o primeiro impulso foi partilhar o momento com os nossos seguidores nas redes sociais... Os diretos multiplicaram-se nas diversas plataformas e reuniram várias e largas centenas de seguidores. Tal como acontecera em Guimarães, várias claques marcaram presença no recinto com cartazes, cachecóis e barulho... muito barulho! É caso para dizer: "Quem te viu e quem te vê, Festival da Canção". Faltaram bandeiras (contavam-se pelos dedos de uma mão as bandeiras que os seguidores levaram) para parecer o Festival da Eurovisão e alegria (muita alegria) ao público presente na plateia... mas isto são contas de outro rosário.


Lembram-se da abertura do Festival da Canção do ano passado? Pois, nem eu... Mas se repetirmos a pergunta no próximo ano, a resposta será completamente diferente. É que faltam-me as palavras para descrever aquele momento... Do Vasco Palmeirim a cantar ao à vontade da Filomena Cautela, passando pela alegria e pela cor e indo até ao passado do Festival da Canção (sim, assim dá gosto reviver o passado do concurso)... A RTP conseguiu fazer no Festival da Canção aquilo que não conseguiu no Festival da Eurovisão! E como cereja em cima do bolo acabaram-se as declarações de "vamos tentar o melhor resultado" passando a ouvir-se "queremos ganhar em Telavive" (quando o sonho acabar, por favor não me acordem...).

E eis chegadas as canções. Nunca escondi que os Calema tinham a minha canção favorita... mas não para ganhar o Festival da Canção. Aliás, "A Dois" era a minha favorita para vencer o Festival da Canção, mas para representar Portugal no Festival Eurovisão a canção vencedora teria de ser outra. Os dois irmãos foram os candidatos que mais alteraram a sua atuação de Lisboa para Portimão: deixámos de ter uma atuação a pensar para o Festival Eurovisão, para uma atuação digna de um concerto dos Calema. Eu preferi assim... mas o júri não concordou (Ok, mas eu também não concordei com a votação do júri). Nota positiva para todas as alterações (e nota máxima para a homenagem ao O Jardim) e um prémio para o melhor falsete da edição. Na minha opinião, teriam entrado no pódio da competição! Que venham mais Calema para as próximas edições.


Com um apuramento à tangente para a Grande Final, Mariana Bragada estava praticamente arredada da luta pelos lugares cimeiros... mas não arredou de conquistar (ainda mais) os nossos corações. Os nervos foram notórios, mas a frescura e a doçura de "Mar Doce" passaram para todos os espectadores. Um bonito momento e, na minha opinião, a maior surpresa da edição deste ano do Festival da Canção e a prova viva que o concurso não pode estar dependente de convites diretos a compositores! Novamente, o público votou melhor que o júri regional... 


Seguiu-se Matay com uma das canções mais poderosas da edição. "Perfeito" era (e é) uma das melhores canções que passaram nos últimos anos pelo Festival da Canção e seria a candidatura típica de Portugal na Eurovisão... mas multiplicar-se-iam as dificuldades em destacar-se no alinhamento em Israel. Recordando a semifinal, a candidatura foi aquelas que mais me desiludiu em palco... algo que mudou em Portimão: a voz de Matay era, por si só, suficiente para encher o palco, mas os diversos instrumentos deram outro brilho à perfomance. Momento arrepiante que levou ao rubro o recinto! E sim, novamente o público votou melhor que o júri.


Por mais que ouça a canção da Surma no Festival da Canção 2019, não consigo gostar... Acredito que, para os mais alternativos, "Pugna" seja uma grande canção e com uma qualidade fora do comum: para mim é apenas três minutos de arrepios. E digo-o sem qualquer maldade! Tudo ali é arrepiante e chocante! Foram três minutos que, apesar de não gostar nada (!) da canção, marcaram a edição do Festival da Canção! Que tenhamos mais Surma's nos próximos anos... Sobre a classificação final, o 5.º lugar não me choca: mas jamais a colocaria em 3.º lugar, como o júri, ou em 7.º, como o público.


(Antes de falar sobre o NBC, terei sido o único a relembrar-me do Fuego no início da atuação?) Juntamente com "Perfeito", a canção "Igual a Ti" era uma das canções mais fortes desta edição do Festival da Canção, arriscando-me também que tanto Matay como NBC foram as duas melhores vozes da edição. Mas, na luta direta para Telavive, NBC teria vantagem com "Igual a Ti" a ter muito menos dificuldades em destacar-se no Festival Eurovisão (na minha opinião, a canção do NBC era uma das três canções aptas para o concurso internacional... e é a primeira que estou a comentar). Destaque também para a mensagem da canção e para as melhorias efetuadas na atuação entre a semifinal e a Final do concurso, sendo um caso notório em que as críticas nas redes sociais podem ser utilizadas para aprimorar a canção. Ficou num lugar bastante merecido! Parabéns NBC!


Nunca percebi (e acho que nunca irei perceber) o apuramento dos Madrepaz para a Final do Festival da Canção 2019. Nenhum ódio contra o grupo nem mesmo à canção, só que simplesmente... não me diz nada! Mesmo assim, admito que gostei muito mais da atuação na Final do que na semifinal. A mensagem passou para casa... mas aquela referência à Palestina e a outros territórios com conflitos armados fez-me temer a vitória do grupo (e a barracada que tal iria armar junto da comunidade internacional). Infelizmente, dois minutos depois, já não conseguia trautear a canção. Na minha opinião, teria ficado na segunda metade da tabela classificativa (e o público voltou a votar melhor).


Acompanho o Festival da Canção ao vivo desde 2010 e nunca (mas nunca mesmo) vi uma apoteose como aquela que se viu com o Conan Osíris! Sempre o disse que "Telemóveis" não era a minha canção favorita para vencer o Festival da Canção, mas que era a ÚNICA canção com todas as condições para representar Portugal no Festival Eurovisão. E sejamos sinceros: há muito tempo que o Festival Eurovisão deixou de ser um festival de canções. É um concurso de performances e de trabalho artístico, onde tais factores aliados a uma canção de 3 minutos disputam o destaque de milhões de espectadores entre mais de 4 dezenas de participantes. E "Telemóveis" tem tudo para se destacar em Israel: da atuação aos sons étnicos da própria canção (admito que estou curioso para ouvir a versão instrumental), a própria irreverência de Conan Osíris não passará despercebida. Ah e poupem-me aos comentários da canção falar de... telemóveis: a canção fala tanto de telemóveis, como "Toy" era sobre galinhas. Mereceu a votação recolhida, sendo que fiquei surpreendido com a (quase) unanimidade da votação dos jurados!  


A difícil tarefa de encerrar o alinhamento e atuar depois de Conan Osíris coube a Ana Cláudia. E atrevo-me a dizer que, juntamente com "Telemóveis" e "Igual a Ti", "Inércia" era a terceira canção preparada para o Festival Eurovisão 2019. Não que fosse lutar por um lugar cimeiro, mas acredito que estaria na luta pela Final do concurso... Mas, pelos vistos, os portugueses não concordaram e colocaram-na em último na Final do Festival da Canção. Os nervos foram mais que notórios na interpretação e gostei mais da atuação na semifinal, mas nunca colocaria a canção em último lugar... Mas alguma teria de ser e a fava calhou à Ana Cláudia.


Com o intervalo a surgir, a conversa sobre quem ganharia o Festival reacendeu entre os diversos elementos do ESCPORTUGAL.... e as opiniões eram unânimes: Conan Osíris tinha de ser o vencedor da gala, com Matay e NBC a seguirem-se nas previsões, face à reação da sala para com as atuações. Tal como é já habitual, a segunda parte do espetáculo ficou destinada às homenagens... e as expectativas estavam elevadíssimas com os novos arranjos de Nuno Gonçalves a algumas canções do passado do Festival da Canção. Contudo, se os momentos de humor entre Vasco Palmeirim e Filomena Cautela e as transmissões da green room a cargo de Inês Lopes Gonçalves marcaram pela positiva (mas positiva altíssima), os arranjos... bem foi o que vimos. 


Fazer uma versão daquelas de "Esta balada que te dou"  é como o Benfica jogar de verde... simplesmente não tem qualquer cabimento. E o mesmo digo de "Cidade (até ser dia)" e de "Senhora do mar": a única parte positiva das versões foi terem sido defendidas pelas intérpretes originais (mesmo que com 11 anos de atraso como aconteceu com a Vânia Fernandes). Foi a maior desilusão deste ano e preferia (1000x) os interval acts das semifinais. Além dos apresentadores, como referi anteriormente, esta parte do espetáculo antes das votações foi também salva pela Cláudia Pascoal e pela Isaura. Goste-se ou não dos novos singles, foi bom ver que o Festival da Canção voltou a ser a rampa de lançamento (ou de relançamento) para os artistas portugueses e foi impossível não sentir aquela saudade de "O Jardim", a canção que nos representou na primeira Eurovisão em Portugal.


Com as surpresas gastas na votação do júri (nunca pensei que houvesse o consenso que houve...), a votação do público não surpreendeu ninguém... nem mesmo quem assistiu à votação na maca dos Bombeiros. Portimão ficará para a história do Festival da Canção como a cidade anfitriã daquela que foi a aposta mais ousada para o concurso em mais de 50 anos de participações. A única ousadia parecida (nem digo semelhante) remonta à década de 80, quando as Doce ousaram ir à Eurovisão com "Bem Bom". Será a aposta mais acertada? Se será não sei, mas que foi a mais acertada dentro do naipé disponível, foi. Uma coisa é certa: os estrangeiros colocam Portugal na rota da vitória, dois anos depois do milagre ter acontecido. Ganhemos ou não, a vitória já está conquistada: deixámos de olhar para a Eurovisão como o "concurso onde interessa é participar" mas para passar a ser "o concurso que queremos voltar a ganhar"!

Parabéns Conan! Obrigado RTP!

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Fonte: OPINIÂO /Imagem: RTP / Vídeo: RTP

11 comentários:

  1. Anónimo23:57

    "E sejamos sinceros: há muito tempo que o Festival Eurovisão deixou de ser um festival de canções. É um concurso de performances e de trabalho artístico, onde tais factores aliados a uma canção de 3 minutos disputam o destaque de milhões de espectadores entre mais de 4 dezenas de participantes."

    Com todo o devido respeito, discordo. É claro que há muitos fatores em jogo para além da canção, mas se a canção não fosse o fator principal nunca teríamos ganho em 2017, por muito boa que fosse a performance do Salvador.

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    1. Anónimo03:55

      Sim, em 2017 vencemos, mas se conhece a Eurovisão, sabe perfeitamente que geralmente as melhores cancoes/vozes não vencem. Se não sabe isso, lamento, mas não conhece a Eurovisão. Em 2017 vencemos porque apresentámos uma canção rara, clássica e universal, com um intérprete fantástico e muito expressivo. E o ano foi muito fraco, basta ver quem ficou em segundo lugar, um puto com pouco talento, mas uma excelente produção. Colocou ênfase na cancao em detrimento do cantor o que também está errado, se em vez de Salvador fosse Matay, provavelmente não venceríamos.

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    2. Anónimo03:45

      É uma questão de opinião. Acho que esse argumento é muitas vezes usado por quem simplesmente não aceita o gosto dos votantes ser diferente do seu. Pessoalmente acho o Kristian Kostov muito talentoso e com uma música belíssima. E sem a canção e voz da Netta ela nunca conseguiria superar a produção da Eleni, pra dar outro exemplo.

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  2. Ricardo00:10

    Segunda mais ousada. A mais ousada foi feita em 2017, destruindo todos os pressupostos sobre o que deve ser uma canção vencedora da Eurovisão.

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    1. Anónimo04:10

      Quando o cronista diz ousada, é no sentido da irreverência e do inovador, daí ter referido no passado as Doce (apesar de pós ABBA, foi visto como imitacao rasca e barata na Europa). Poderiamos sim dizer que a Luísa/Salvador foram ousados, mas não sejamos totós, a música não foi pensada para a Eurovisão mas sim para o FDC recorrendo a fórmulas já vistas no passado. Nesse sentido, no âmbito de FDC, ousadia zero. Nem o Salvador nem a Luísa conheciam bem a Eurovisão, não tinham o habito familiar se assistir quando eram pequenos e pior, o Salvador detestava e detesta a Eurovisao, foi um mero prostituto, palavras dele ha dias.

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    2. Anónimo09:48

      Concordo. Circo no ESC houve muito já

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    3. Percebo que queres dizer mas não concordo APD seja Ousada, é mais obra prima, canção do Conan é canção portuguesa na ESC mais ousada de sempre! Basta olhar performance dele e do Salvador para notar as diferenças e são muitas.

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  3. Belo texto! Agora é sonhar com mais uma vitória.

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  4. Anónimo09:10

    Infelizmente, os Calema alteraram tanto a sua canção que acabei por não mais votar neles. Gosto da versão estúdio/original da A Dois, mas da da final não.

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  5. Anónimo20:29

    A Inercia era uma boa cançao? O ritmo sim mas agora o resto.. Primeiro quem e que cham "inercia" a uma musica? E ainda nao em esqueci de Meu maaaaaal, Meu beeeeeemmmmmm, Meu maaaaaaal, meu beeeeeeeem, meu beeeeeeeem meu maaaaaaal

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  6. Maior ousadia do que realizar e produzir o Festival da Canção não é possível se atendermos ao conteúdo musical paupérrimo que invariàvelmente todos os anos enfastia e por vezes provoca sonolência no telespectador.

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